Sabedoria Oriental
Postado em: 16. Jun, 2009 | Por: André Abou | Coluna: Mais Dinheiro
Depois de escrever o Momento Pai Mei, e de ler o post do Renato sobre os Candles, fiquei intrigado pelo fato da cultura oriental estar tão arraigada no mercado financeiro, mesmo que, por vezes, subjetivamente.
E logo me veio à mente a filosofia maoísta do Yin e Yang. Antes que você diga que este quadro não deveria se chamar Seu Dinheiro e, sim, Seu Sensei, digo que esse conceito chinês será uma metáfora bastante poderosa para entendermos o mundo financeiro.
Filosoficamente, o Yin e o Yang são duas forças universais antagônicas, em constante embate. Como duas pessoas, uma de cada lado, em um cabo de guerra. Em um momento, um lado consegue puxar mais o outro, mas logo o outro recobra as energias e traz o cabo ao centro novamente. O Yin e o Yang operam da mesma maneira. A ação de um vai de encontro à do outro, levando o universo ao equilíbrio. Um equilíbrio constantemente fora de prumo e, ao mesmo tempo, alinhado.
O Yang pode ser entendido, entre outras coisas, como a luz (a parte branca da bola aí em cima), como o poder construtivo do universo, como a ordem. Já o Yin, também entre outras coisas, pode ser entendido como a escuridão (adivinha qual parte da bola ele é…), como o poder destrutivo – mesmo que passivo (pense em como a natureza decompõe a matéria orgânica) -, como o caos. Vale dizer também que, apesar de parecer que um é o bem e o outro é o mal, Yin e Yang não são forças maniqueístas, como nosso pensamento ocidental está viciado em perceber. Construção e destruição são conceitos opostos, mas ambos podem ser tanto bons quanto ruins.
Destruir é bom?
Claro! Do mesmo jeito que construir o tempo todo pode ser muito ruim!
Vamos a exemplos:
Destruição (Yin) – Imagine se nós não morrêssemos, ou, por definição, não fôssemos destruídos. Se você acha que hoje a Terra já não está aguentando nosso padrão de vida, imagine se, além de nós, todas as pessoas que já nasceram algum dia ainda estivessem vivas! Ainda bem que os chineses pensaram nessa coisa do Yin ser bom, senão eles teriam ainda mais problemas populacionais…
Não se convenceu? (pronto, chegamos à parte econômica da coisa)
Construção (Yang) – Então você acha que construir sempre é bom. Mas você já chegou a pensar na superlotação dos lixões, principalmente nas grandes cidades? Eles estão lotados, porque nós construímos muitas coisas (embalagens, comida, jornais etc.) e simplesmente as acumulamos. Na natureza, as coisas se decompõem, se destroem. Mas nós não deixamos isso acontecer e construímos ainda mais.
Similarmente, um dos fatores ligados à crise financeira mundial é a crise do superinvestimento, já alardeada há algum tempo. Vamos explicar: você quer investir seu dinheiro, certo? E ganhar mais dinheiro, certo? Todo mundo quer. Pois é. A partir da década de 1990, os bancos, ou melhor, um banco americano, o JP Morgan reuniu seus diretores numa espécie de resort pra que eles trocassem figurinhas. Nesse toró de ideias, os diretores pensaram que seria muito legal se eles pegassem todas as dívidas que eles tinham a receber e as transformassem num Ativo único (1). Numa aproximação grosseira, seria como se você pegasse seu salário do mês que vem – que você ainda não recebeu – e o vendesse pro seu amigo a 80% do seu valor, de modo que ele ganha os 20% restantes quando seu salário chegar e você tem 80% do salário pra gastar agora.
Com o dinheiro em mãos agora, e não só na data “oficial” do recebimento, esse banco (e os demais bancos, que, com o tempo, seguiram a mesma grande ideia) pôde investir em outras coisas antecipadamente. Possivelmente, emprestaria o dinheiro a alguém que precisasse, o que geraria outro recebível e que, de novo, seria vendido a outro banco, gerando mais dinheiro agora, que seria investido…
Esse ciclo construía mais dinheiro e exponencialmente, e deu no que deu!
Pois bem. Convencido(a)?
Então vamos à aplicação prática disso pra você. Esses ciclos de embate de forças também valem pra economia e é de extrema importância que você saiba como eles funcionam.
- Inflação x Taxa de Juros: a Inflação é um dos fatores determinantes da demanda por moeda na economia. Expliquemos: lembram-se daquela lei básica da Oferta e da Procura? A inflação é um medidor dessa lei para de quanto dinheiro a economia necessita. Vamos supor que a economia esteja aquecida e muitas empresas necessitem de dinheiro para produzir mais coisas (afinal as pessoas estão comprando mais). A demanda por dinheiro aumenta. Mas se não houver dinheiro suficiente para suprir essa demanda, o dinheiro se torna um item “raro” na economia, logo seu preço sobe. E como pode subir o preço do dinheiro? O dinheiro tem uma maneira peculiar de elevar seu preço: cada unidade monetária passa a valer mais (a única nota da sua carteira, aquela de R$2, passa a poder comprar mais coisas). E configura-se um cenário de Deflação. No caso inverso, havendo muita oferta de dinheiro, caso, por exemplo, o Governo passe a imprimir mais notas na Casa da Moeda (os mais saudosistas vão se recordar da época em que o Brasil fez isso), configurar-se-á um cenário de Inflação. Havendo Inflação, pode-se presumir que a economia está com excesso de dinheiro, ou a oferta de moeda está muito elevada, minguando o valor da mesma. Como fazemos então para retirar dinheiro da economia? Elevamos as taxas de juros! Com Taxas de Juros altas, menos pessoas e empresas vão tomar dinheiro emprestado (ninguém gosta de fazer empréstimos mais caros, certo?), logo haverá menos dinheiro em circulação, reduzindo a oferta, reduzindo a Inflação.
- Dólar x Bolsa de Ações: como vocês podem observar no gráfico acima, a linha vermelha representa as cotações de fechamento do dólar de venda (ou seja, o último preço ao qual o dólar foi negociado, para aquelas negociações de venda de dólar), também chamadas de Ptax. E a linha verde representa as cotações de fechamento do Índice BOVESPA, ou IBOVESPA. Notem que quando uma sobe, a outra cai, e vice-versa. Curioso, não? Isso se dá pela influência dos investidores estrangeiros na Bolsa. Quando um investidor estrangeiro compra uma ação na BOVESPA, tem de enviar dinheiro para o Brasil, para poder cumprir com esse dever de pagar pela compra. E esse investidor faz isso vendendo dólares para comprar reais (por definição, fechando um câmbio). Esse câmbio coloca mais dólares e tira reais das reservas do Banco Central. Se tivermos muitos investidores estrangeiros comprando ações, há mais e mais dólares sendo injetados, o que faz com que a oferta de dólar se eleve, sem que haja tanta demanda pela moeda, logo a cotação dólar x real cai! Ao mesmo tempo, se mais ações são compradas, sua demanda sobe. Se a oferta de ações permanece a mesma, a lei da Oferta e da Procura diz que o preço sobe! E a Bolsa sobe! Voilà!
Esses são alguns exemplos de como as diversas entidades do mundo das finanças interagem. Espero que números como Inflação, Taxa de Juros, Bolsa etc. tenham deixado de ser coisas filosóficas pra vocês, como forças universais maoístas. Espero que tenham se tornado mais palpáveis e fáceis de compreender!
No próximo episódio, o Seu Dinheiro vai falar mais sobre esses embates de forças econômicas e sobre a vantagem de conhecê-las melhor.
Forte abraço!
(1) Fonte: NPR Planet Money Podcast – episódio #45
Baixe a planilha usada nesse post

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2 Comments
Hotmoney - Seu dinheiro - Bolsa, rímel e sombrinha | Hotmoney
24. Feb, 2010
[...] ultimamente, nossos assuntos não acabaram! Pensando nisso, vou retomar o assunto que comecei em Sabedoria Oriental, em que falava das forças universais antagônicas, e das forças econômicas igualmente em [...]
Hotmoney - SELIC | Hotmoney
25. Feb, 2010
[...] por que a inflação? Qual a relação da taxa de juros com a inflação? A resposta desta pergunta responde também ao título deste [...]
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