“Imóvel não é investimento”
Postado em: 28. Nov, 2011 | Por: André Abou | Coluna: Mais Dinheiro
Vovó já dizia que imóveis são o melhor lugar para colocar seu dinheiro. Mas será que vovó era tão sábia?
Uma vez eu ouvi que uma pessoa sábia aprende com os próprios erros. Mas uma pessoa madura aprende com os erros dos outros. E aí eu me lembrei dessa coisa que eu ouvia desde sempre: “imóveis são o melhor investimento”. Ou: “eu nunca vi imóvel se desvalorizar.” Então uma pulga começou a cutucar a parte de trás da minha orelha. Será que isso é verdade sempre?
“Rendimentos passados não são garantia de rendimentos futuros”
Esta frase logo acima está praticamente em todos os contratos/panfletos/folderes/cartazes/propagandas de TV feitos por bancos e corretoras. Sabe por quê? Porque eles usam os dados das rentabilidades passadas de seus produtos financeiros para mostrar como são bons. Em outras palavras: “nosso fundo de investimento rendeu X% no ano passado, então invista seu dinheiro com a gente.” Mas lá embaixo, em letras pequenas, eles dizem que esses números do passado não garantem que o fundo será tão bom no futuro.
Isso é óbvio, pensando no mercado financeiro. Uma das coisas mais complicadas que existe é tentar prever o que vai acontecer amanhã no mercado. Por que então somos levados a pensar que o passado vai se repetir no futuro? Existem várias explicações para isso, uma delas chamada dissonância cognitiva, que é basicamente a “habilidade” que nossos cérebros têm de dar sentido a coisas que não fazem sentido algum. Ou seja: você sabe que rentabilidade passada não é sinônimo de rentabilidade futura, mas, como a propaganda deu mais ênfase ao sucesso do banco ou corretora no passado, você se foca nessa informação como sendo a verdade e ignora a parte que não se encaixa. Sacou?
E com os imóveis?
Com os imóveis é a mesma coisa. Você deve ter ouvido a vida toda, assim como eu, que imóveis são o melhor investimento que há. E, apesar de você ter visto ocorrer a bruta crise no mercado imobiliário americano, apesar de você ter visto imóveis sendo vendidos a US$1,00 (sim, UM DÓLAR), você continua acreditando que imóveis são o melhor investimento que há.
Então chego ao meu ponto. Temos que deixar de cair nessa dissonância cognitiva e temos que perceber que imóveis não são investimentos.
Mas por quê?
Não vou usar gráficos, nem análises complexas, nem fórmulas matemáticas. Vou usar a sabedoria de quem passou por isso.
O programa Marketplace Money, da rádio pública americana APM, fez um episódio especial no dia 11/11/11 falando especificamente das consequências do estouro da bolha imobiliária vivida pelos EUA em 2008. Para os que não sabem, a crise americana teve dois fatores-chave que impactaram profundamente a economia. As pessoas deixaram de pagar suas hipotecas, porque haviam se endividado em excesso, e, consequentemente, o mercado financeiro ficou sem dinheiro para continuar alimentando o crescimento da economia. O segundo fator então levou à destruição de vários postos de trabalho, que, por sua vez, levou a pessoas desempregadas e sem dinheiro para pagar suas hipotecas. Esse ciclo de retroalimentação levou à crise como vimos.
Voltando ao Marketplace, eles consultaram especialistas, analistas, planejadores financeiros e, mais importante, pessoas normais que passaram por problemas durante a crise. Uma dessas pessoas foi Carl Richards, planejador financeiro certificado (sim, nos EUA essa profissão é levada a sério) e autor de tirinhas sobre finanças pessoais desenhadas em guarda-napos (!). Ele conta a história que sua família passou por conta da crise e, quando foi indagado sobre o que ele aprendeu com sua experiência, disse:
“Sua casa não é um investimento. Sua casa é o lugar onde você mora.”
Sua conclusão veio porque ele e sua família haviam comprado uma casa financiada na região de Las Vegas. Nos EUA, os financiamentos imobiliários são feitos por meio de hipotecas: a casa fica em nome do banco até que você pague todas as parcelas. No Brasil, esse produto não é tão comum, mas o princípio é o mesmo. Nós não compramos imóveis à vista (em geral). Compramos imóveis financiados. Compramos uma dívida que temos que pagar por até 30 anos.
Pois bem. Em um dado momento, Carl não pode mais pagar suas parcelas e se viu obrigado a parar com os pagamentos. Só que isso tem consequências. A mais grave delas foi a de perder a casa. A casa em que sua família vivia.
Em sua análise, ele chegou a esse estado porque, quando assinou o contrato para comprar a casa, caiu na mesma falácia da vovó lá de cima: “ah, imóveis são um bom investimento; eles sempre se valorizam.” Então ele se comprometeu a comprar uma casa cara, porque acreditava que seu preço iria subir. Porque pensava que casas eram investimentos.
Carl, portanto, caiu numa dissonância cognitiva. Ele pensou que sua casa era um investimento quando assinou o contrato. Mas, quando ele e sua família ficaram sem ter onde morar, lembrou que ela era seu lar.

"Eu perdi tudo na Bolsa" - Azar o seu...; "Eu não consegui pagar minha casa" - Coitadinho!; Isso é a dissonância cognitiva. | Foto por Piotr Ciuchta (http://www.sxc.hu/profile/haloocyn)
“Então eu não devo comprar imóveis?” – você se pergunta
A resposta é não! Você deve sim comprar imóveis. Mas tenha em mente o seguinte: o imóvel que você compra para morar é seu lar! Se tudo der errado em sua vida, se você perder o emprego, não puder mais pagar seu financiamento e perder seu imóvel, você não terá um teto sobre sua cabeça!
Pense: você ouve especialistas em finanças pessoais dizendo que “para investir na Bolsa, use um dinheiro de que você não vai precisar.” Ou ainda: “tenha em mente que a Bolsa tem riscos e que você pode perder seu dinheiro.” Ora, por que nessa hora esses conselhos fazem sentido, mas quando pensamos em comprar um imóvel, a gente ignora tudo e compra de olhos fechados?
Enfim… O ponto é: imóveis são um investimento sim, desde que não seja o imóvel em que você mora! Se você está pensando em comprar um imóvel para morar, esqueça completamente dessa coisa de estar fazendo um bom investimento. Se você quer comprar um imóvel para investir, então não more nele.

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One Comment
leonne
08. Mar, 2012
Se for para sair do aluguel eu acho que seria um investimento. Se uma pessoa paga 500 reais por mes de aluguel e decide financiar uma casa, pagando uma parcela parecida, isso seria um inestimento, pois ao término do financiamento ela terá uma casa. Caso tudo dê errado ela no máximo ficará sem casa, assim como ficaria se estivesse no aluguel.
Porém eu entendi o seu texto e a quem você se referiu. Concordo com você nesse sentido. Bom texto.
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