[opinião] O cenário da educação no Brasil

Postado em: 16. Aug, 2011 | Por: | Coluna: Conceitos de Economia

Muito se fala sobre quão problemática é a educação no Brasil. Mas até que ponto essa falha é de fato causada por nosso sistema?

Hotmoney - Educação no Brasil

Foto por Colin Brough (http://www.sxc.hu/profile/ColinBroug)

Novamente, estava eu tomando meu café da manhã com a televisão ligada fatidicamente no Bom Dia Brasil. Tenho quase certeza de que há muito tempo não assistia a esse telejornal tão completo, variado e inteligente… Quando assisto, pérolas ocorrem e me sinto complelido a dispor minhas opiniões.

O jornal trazia uma matéria sobre os brasileiros que foram ao exterior estudar, se especializar, e que agora estão retornando ao Brasil graças ao crescimento econômico. A reportagem mostra os benefícios que essa estratégia na carreira traz para os especialistas, bem como para as empresas, sugerindo ainda aos empresários que abram os olhos para esse tipo de mão-de-obra essencial.

Então estava eu na faculdade (sim, por diversos motivos ainda estou na faculdade), rumo ao meu primeiro encontro com o orientador do meu trabalho de conclusão. Chego à sala e, para minha surpresa, encontro uma professora. Achei estranho, mas relevei a troca de orientador que me fora sumariamente imposta pela faculdade. Mas havia mais surpresas à frente, pois a sala da orientação havia sido trocada e essa infomação passada por email naquela tarde. A professora me recebe:

  • Professora: Nossa, você veio! Achei que ninguém viesse, porque passei o email hoje de tarde.
  • Eu: Mas eu vim. Sobre o meu trabalho… – cortei para o que interessava – eu gostaria de falar sobre empreendedorismo no Brasil.

Então gastei alguns 15 minutos explicando como minha ideia já estava bastante formatada, minha pesquisa preliminar feita, minha metodologia definida e meus resultados esperados rascunhados. A resposta veio a cavalo:

  • P: Olha, eu não sou administradora, sou economista. – eu, André, curso Administração de Empresas – E não conheço muito da literatura de empreendedorismo além do que se fala em economia. Não sabia de muitos desses dados que você está me apresentando. Mas assim, eu gosto de trabalhos exóticos… Porque, você sabe, a gente não costuma fazer um trabalho desses no término do curso. O pessoal vem mais com uma revisão bibliográfica mesmo.
  • Eu: Na verdade, eu pretendo fazer um trabalho bom, que abra portas para mim no futuro. Não gostaria de fazer apenas mais uma revisão bibliográfica, eu quero pesquisar, afinal não é esse o intuito deste trabalho: ensinar a pesquisar? Também ouvi dizer que, na faculdade, trabalhos que se destacam podem receber um prêmio de reconhecimento.
  • P: A revisão bibliográfica é importante para o pessoal aprender a pesquisar. E realmente, pode ser que você consiga alguma coisa depois sim, mas não sei bem quanto a esse prêmio. Bom, se você acha que consegue, vai fundo.

Parei, respirei fundo (uma das vantagens de você terminar a faculdade estando um pouco mais velho é aprender que, como em tudo na vida, o importante é ter paciência) e refleti sobre aquela situação. Eu estava ali, conversando com uma professora que não foi quem eu escolhi, que não é especialista no assunto que eu quero tratar e que estava tentando me convencer a desistir do meu trabalho porque ele é trabalhoso demais? Uma professora que queria me convencer que uma revisão bibliográfica é pesquisa, quando, na verdade, ela é apenas parte dela?

Então me lembrei da história de um amigo meu, que está terminando sua pós, e que acabou entregando um trabalho de conclusão insatisfatório, na sua opinião. E o trabalho ficou aquém do que ele pretendia, por diversos motivos, um deles sendo a dificuldade de se obter informações de dentro de empresas privadas. Seu dilema era discutir ou não isso na frente da banca que o analisará, sendo que essa banca será composta, claro, por seu orientador, o mesmo que o aconselhou a não refutar seus resultados na conclusão de seu trabalho escrito.

E é aqui que eu paro e penso. Numa mesma semana, vi três casos de como o conhecimento é simplesmente jogado às traças no Brasil. Como pesquisador que almejo ser, sei que três casos não são suficientes para concluir absolutamente nada, mas, como brasileiro, sei que são.

A realidade que me foi jogada na face é que o brasileiro é sim Macunaíma. O brasileiro é preguiçoso. Sempre que se toca no assunto “educação”, dizem de como não há recursos no Brasil, de como tudo é complicado e que, por isso, esse tudo deve ser deixado pra lá. Por outro lado, eu e meu amigo jogamos na cara dos professores duas pesquisas que seriam realizadas gratuitamente, ou seja, sem ônus aos acadêmicos ou à academia. Estávamos dispostos a coletar dados, analisá-los e discuti-los sem gerar trabalho algum a esses orientadores, que não teriam que colocar a mão na massa de fato. Mas, no meu caso, fui desaconselhado e, no caso do meu amigo, ele não recebeu do orientador (pessoa mais experiente, por isso escolhida para orientar) sugestões e contatos de empresas que poderiam aumentar as chances dele conseguir dados.

Também me foi jogado na cara que o brasileiro que vai ao exterior estudar é um bom brasileiro, que devemos almejar estudar lá fora e que empresários devem almejar contratar esses funcionários qualificados.

Ou seja: precisamos de educação, mas aqui ninguém faz. Ou se faz lá fora, ou ficamos todos nesta preguiça extrema, neste marasmo de conhecimento. E por quê? Porque faltam recursos? Não. Porque ninguém quer colocar a mão na massa. Os poucos que querem esbarram na maioria esmagadora que não quer. E tudo vai ficando…

Para encerrar, me lembro de ter lido um post muito exacerbado sobre Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro que muitos acreditam ser “a promessa de um prêmio Nobel brasileiro”. Não quero desmerecer o trabalho do Miguel, que é espetacular, mas fico com uma pulga atrás da orelha. O post encerra sua discussão clamando:

Vamos ajudar Nicolelis e deixar seu sucesso respingar em nós, moçada!

Que mania é essa de acharmos que o sucesso veio de outrem? Miguel só chegou onde chegou, porque se esforçou (desculpem o termo baixo) pra caralho e não porque ele foi um afortunado que só conseguiu porque tinha os recursos de pesquisa do exterior, como relata o texto. Ter os recursos que os EUA têm para esse tipo de coisa é bom? Claro que é! É possível fazer pesquisa sem eles? Óbvio que sim!! Miguel Nicolelis não é exceção porque a cultura americana é mais meritocrática. Isso não existe! Meritocracia é uma maneira bonita de dizer que o vencedor recebe os louros. E Nicolelis recebeu os louros aqui no Brasil. Ele não chegou onde chegou por conta da cultura americana, como prega o post, mas porque ele é um dos poucos brasileiros que foram lá e fizeram alguma coisa. O resto de nós, aqui, ficamos cabisbaixos, esperando que a resposta venha sempre de fora: faltam recursos, falta infraestrutura, falta apoio, falta isso e aquilo.

Mas se este africano conseguiu gerar energia elétrica para sua casa no meio do nada, porque raios a gente aqui não consegue enxergar um palmo na frente dos nossos narizes?

Sim, eu vou escrever meu trabalho de conclusão, com ou sem apoio. Vou gastar meu tempo fazendo pesquisa, coletando dados, entrevistando pessoas. Vou imprimi-lo, com meu dinheiro, colocá-lo debaixo do meu braço e vou sair por aí conseguindo alguma coisa com ele. Não vou esperar minha faculdade, porque, para mim, gerar conhecimento é um ato que não depende de mais ninguém além de mim.

Sobre o autor

André Abou André Abou não gosta de complicação. Escreve no Hotmoney de maneira descomplicada e divertida, porque acha que finanças e economia não são coisas de gente engravatada. Resolveu também que preencher “empresário” em formulários é legal.

4 Comments

Rafael Ramon

18. Aug, 2011

Muito bom o texto. Infelizmente essa é a nossa realidade. Acho que as pessoas precisam de dar apoio para as coisas da nossa terra, sem desmerecer o de fora, mas sim, buscar nós mesmos fazermos, e nos orgulharmos de tais feitos.

André Abou

18. Aug, 2011

Realmente, tem isso também! Além de tudo isso, a gente ainda só dá valor se tivermos o carimbo do estrangeiro. 100% aqui não é tão bom…

Pricila Matias

10. Oct, 2011

Caramba! muuiiiito bom seu post André! Concordo em gênero, número e grau!
É muito bom encontrar pessoas com esse espírito transformador e que impulsiona às pessoas a se tornarem tranformadoras também! precisamos sim! fazer o que está ao nosso alcance para que as coisas mudem em vez de esperarmos algum milagre!

André Abou

20. Oct, 2011

Muito obrigado!! Fico feliz de saber que existem algumas pessoas que tentam colocar a cabeça acima da linha do marasmo! Obrigado pela injeção de ânimo! E boa sorte nas suas tentativas de mudar o mundo! :)

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